“Desabafo Visceral”: Juice FLSH, de Luanda, apresenta emo trap marcado por vivências reais
Em meio à solidão, ansiedade e às dificuldades enfrentadas no cotidiano de Luanda, um artista independente encontrou na música uma forma de sobrevivência emocional. O EP “Desabafo Visceral” nasce justamente desse processo: um registro íntimo e sem filtros, construído a partir de experiências reais e transformado em emo trap com identidade própria.
A relação do artista com a música começou em Angola, em 2022, quando ele decidiu transformar o próprio quarto em um home studio improvisado. Com apenas um celular Samsung A10s antigo e fones baratos, passou a gravar suas primeiras ideias como forma de lidar com ansiedade, depressão e dores emocionais.
O contato com o emo trap veio através de referências como Juice WRLD e da cena do trap brasileiro. A mistura entre melodias melancólicas e letras confessionais chamou atenção justamente por traduzir sentimentos que ele vivia naquele momento. Em um cenário onde o emo trap ainda possui pouca força em Angola, o artista decidiu criar o próprio espaço dentro do movimento.
Um EP construído como diário pessoal
Segundo o artista, “Desabafo Visceral” funciona como um diário emocional transformado em música. O projeto foi desenvolvido durante um período marcado por ansiedade intensa, relacionamentos frustrados, sensação de solidão e conflitos internos.
As composições surgiram de forma espontânea, quase como mensagens pessoais. Em vez de buscar personagens ou narrativas distantes, o artista escolheu escrever diretamente sobre aquilo que estava vivendo. Cada faixa carrega reflexões, desabafos e emoções registradas sem censura.
A proposta do EP é justamente transformar sentimentos difíceis em arte, usando a música como ferramenta para organizar pensamentos e atravessar momentos de instabilidade emocional.
Conexões internacionais construídas pela internet
Mesmo trabalhando de forma independente, o projeto também ganhou conexões fora de Angola. As parcerias com Guilherme Santos, do Brasil, e VC!666, da Colômbia, surgiram através do Instagram e de comunidades voltadas à música.
Com Guilherme Santos, a aproximação aconteceu a partir da identificação com o trap melódico e com letras emocionais. Já a colaboração com VC!666 nasceu pela semelhança entre os temas abordados nas músicas dos dois artistas: dor, sobrevivência e experiências pessoais.
A produção à distância trouxe desafios, principalmente pelo fuso horário entre Angola e Colômbia, mas o processo foi construído através de trocas constantes por WhatsApp, áudios e envio de arquivos online. Segundo o artista, essa distância acabou tornando as músicas ainda mais intencionais, já que a comunicação precisava transmitir emoção além da técnica.
Angola, Brasil e a construção de uma nova ponte musical
Para o artista, existe uma conexão natural entre Angola, Brasil e o cenário latino atual. Além da língua e das referências culturais compartilhadas, o trap e o funk brasileiros possuem forte presença entre os jovens angolanos.
Mesmo assim, ele acredita que ainda existe pouca integração direta entre artistas desses territórios. Por isso, vê seu trabalho como parte de uma nova geração que busca aproximar Luanda de cidades como São Paulo e outros polos da música urbana latino-americana.
A proposta é apresentar um emo trap com características próprias, carregando experiências do cotidiano angolano e uma escrita marcada pela poesia em língua portuguesa. Para ele, o mercado latino tem buscado cada vez mais histórias reais e novas perspectivas dentro da música urbana.
Produção independente feita dentro do próprio quarto
Todo o EP “Desabafo Visceral” foi desenvolvido de maneira independente, sem apoio de selo ou estrutura profissional tradicional. Grande parte das produções foi feita pelo próprio artista dentro do quarto, em Luanda.
As gravações foram realizadas utilizando o aplicativo BandLab para captação de voz e o FL Studio Mobile para mixagem e masterização. A faixa “Desabafo Visceral”, em parceria com VC!666, foi produzida entre Angola e Colômbia, enquanto Guilherme Santos colaborou na mixagem e masterização da música “Inexplicável”.
Mesmo com limitações técnicas e poucos recursos, o projeto reforça uma característica cada vez mais presente na nova cena independente: artistas que transformam criatividade, internet e vivência em ferramenta de construção artística.
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