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DJ Raffa Santoro: o produtor que ajudou a colocar o rap nacional no disco, no palco e na memória

Com mais de quatro décadas ligadas ao hip-hop, o artista atravessa a história do gênero como DJ, produtor musical, engenheiro de som, beatmaker, escritor, educador e articulador cultural.

DJ Raffa Santoro: o produtor que ajudou a colocar o rap nacional no disco, no palco e na memória
Foto Jefferson Modesto

Antes de o rap brasileiro se consolidar como indústria, existia uma cena tentando encontrar seus próprios meios de gravação, circulação e permanência. Eram tempos de vinil, fita, estúdio caro, poucas portas abertas nas gravadoras e quase nenhuma estrutura especializada para transformar rimas, scratches e beats em fonogramas profissionais. Dentro desse cenário, DJ Raffa Santoro ocupa um lugar decisivo.

Seu nome aparece em várias frentes da cultura hip-hop: no break, nas pick-ups, nos estúdios, nas rádios, nos palcos, nos videoclipes, nos projetos sociais, nos livros e na formação de novos artistas. Mas sua contribuição mais profunda está em uma função que nem sempre recebe o mesmo destaque dos MCs: a de produtor musical.

Raffa foi um dos profissionais que ajudaram a dar acabamento técnico e presença fonográfica ao rap brasileiro em uma fase em que o gênero ainda disputava espaço para ser reconhecido como música, linguagem cultural e mercado. Seu percurso reúne gravações pioneiras, atuação em grupos históricos, produção de discos, premiações nacionais e um trabalho continuado de formação em comunidades.

Do break ao estúdio: um nome formado dentro da cultura

Cláudio Raffaello Serzedello Corrêa Santoro, conhecido artisticamente como DJ Raffa ou Raffa Santoro, nasceu no Rio de Janeiro em 4 de setembro de 1968. Filho do maestro Claudio Santoro e da bailarina Gisele Santoro, teve contato com música, dança e formação artística desde cedo. Sua entrada no hip-hop acontece ainda nos anos 1980, quando começa a dançar break no Distrito Federal.

Os registros de carreira apontam sua atuação como b-boy entre 1983 e 1986, fase em que integrou o grupo The Breaks. Em 1984, já experimentava montagens de scratches; em 1986, passou a trabalhar como DJ. A partir daí, sua trajetória se deslocou para uma combinação que definiria seu papel no rap: vivência de rua, domínio técnico de áudio e capacidade de organizar projetos.

Essa formação técnica também é um diferencial. O dossiê profissional de Raffa registra curso de especialização em MIDI, em Mannheim, na Alemanha, em 1989, e formação em engenharia de som nos Estados Unidos, com foco em gravação, edição, mixagem e masterização. Em um período em que poucos produtores ligados ao rap dominavam os recursos de estúdio com essa profundidade, esse conhecimento colocou Raffa em uma posição estratégica.

Seu trabalho no rádio também ajudou a criar repertório e linguagem. Passou por emissoras como Rádio Globo, Rádio Atividade e Rádio Cultura, em Brasília, além de comandar programas próprios ligados ao hip-hop em fases posteriores, como o Central Hip Hop. Essa passagem pelo rádio é importante porque conecta três etapas do mesmo processo: seleção musical, escuta pública e produção.


O rap brasileiro entrando no disco

Para entender a relevância de Raffa, é preciso lembrar que o rap brasileiro começou a se firmar em disco no fim dos anos 1980. A coletânea “Hip-Hop Cultura de Rua”, lançada em 1988 pela Eldorado, é reconhecida como um marco fonográfico do gênero no país por reunir nomes como Thaíde & DJ Hum, MC Jack, Código 13 e O Credo.

É nesse ambiente ainda inicial que Raffa aparece com os Magrellos, grupo de Brasília que levou o rap do Centro-Oeste para uma circulação nacional. Nos documentos reunidos sobre sua carreira, a fase dos Magrellos aparece como um ponto de virada: o grupo é apresentado como um dos primeiros do rap brasileiro a gravar por uma multinacional, a chegar ao formato CD, a entrar em trilha sonora de novela da Rede Globo e a lançar videoclipe em 16mm para a MTV.

A discografia registra “A Ousadia do Rap de Brasília”, lançado pela Kaskatas, e o álbum “Magrellos”, lançado pela Sony Epic em 1991, em vinil, cassete e CD. O próprio currículo de Raffa aponta sua atuação nos estúdios Som Livre e Impressão Digital, no Rio de Janeiro, como produtor e técnico na gravação e mixagem do disco dos Magrellos, produzido pela Sony Music.

Esse dado é central para a história do rap nacional. Não se tratava apenas de ter um grupo de rap em uma gravadora grande. Tratava-se de colocar uma sonoridade ainda marginalizada dentro de uma estrutura profissional de indústria, com prensagem, distribuição, televisão, videoclipe e trilha sonora.

Um exemplo desse alcance é “Doidão”, dos Magrellos, que aparece na trilha complementar “Rádio Corsário - O Som da Galera Vamp”, ligada à novela “Vamp”, exibida pela TV Globo entre 1991 e 1992. Outro registro público importante é a participação de Rosana no vocalize de “Mexa-se”, faixa do trabalho de estreia dos Magrellos, com clipe veiculado na MTV e em programas de televisão.

O produtor que aparece em muitas camadas do rap

O papel de DJ Raffa não se resume à própria discografia. O dossiê de carreira aponta 140 discos produzidos entre 1989 e 2025, além de 57 singles e 3 álbuns produzidos entre 2020 e 2025. A dimensão desse catálogo ajuda a explicar por que seu nome é citado como um dos produtores mais constantes e influentes do rap brasileiro.

Quando se fala em “tracks”, o alcance tende a ser ainda maior do que o número de discos sugere. Cada álbum, single, remix, faixa instrumental, trilha, vinheta e produção audiovisual compõe uma parte do catálogo técnico e criativo de Raffa. O que se vê é uma atuação que atravessa gerações, formatos e regiões: vinil, CD, DVD, álbum digital, single, trilha sonora, clipe, remix e oficina.

Entre os nomes e grupos relacionados à sua trajetória estão GOG, Câmbio Negro, DJ Jamaika, De Menos Crime, Consciência Humana, Provérbio X, Viela 17, Atitude Feminina, Baseado nas Ruas, Magrellos, F-Dois, Comunidade Manoa, Gangue do Rap e outros artistas ligados à cena do Distrito Federal e de diferentes regiões do país.

A página pública sobre o hip-hop brasiliense registra Raffa como um dos primeiros beatmakers do Distrito Federal e produtor de artistas como GOG, Câmbio Negro e DJ Jamaika. Já o registro público sobre o Viela 17 aponta que o álbum “O Alheio Chora Seu Dono”, lançado em 2004, foi produzido por Edi Rock, DJ Raffa e DJ K, com participações de Rappin’ Hood, Pregador Luo, MV Bill e Sobreviventes de Rua.

Essa amplitude mostra que Raffa atuou como uma espécie de ponte técnica e criativa. Em uma cena que precisava de produtores capazes de transformar discurso em música gravada, ele ofereceu estrutura, conhecimento e acabamento para artistas que ajudaram a escrever a história do rap nacional.

Baseado nas Ruas e a continuidade da obra

Em 1992, Raffa formou, ao lado de Marcão, o grupo Baseado nas Ruas, ligado ao Guará II, no Distrito Federal. A página pública de DJ Raffa registra que, em dois anos, a TNT Records lançou dois discos do grupo, movimento que contribuiu para tornar seu nome conhecido nacionalmente.

A discografia do Baseado nas Ruas reúne trabalhos como “Baseado nas Ruas”, “Bagulho na Sequência”, “Reflexão”, “A Sabotagem Continua”, “Laboratório do Crime” e “Guerrilheiro Voltou”. Nos arquivos enviados, o grupo aparece com seis álbuns, discos em vinil, CDs, álbuns digitais, singles e videoclipes.

A parceria de Raffa com Marcão tem importância porque não ficou presa a uma fase nostálgica dos anos 1990. O grupo voltou a movimentar sua obra em novas fases, com lançamentos digitais, videoclipes e projetos de resgate. O trabalho “Baseado nas Ruas Retrô”, por exemplo, recupera músicas gravadas nos anos 1990 que existiam em vinil, transformando memória em circulação contemporânea.

Esse gesto revela uma característica importante da carreira de Raffa: produzir, para ele, também é preservar. Ao recuperar fonogramas, editar clipes, relançar obras e manter vivo o repertório, o produtor atua como guardião de uma memória que poderia se perder entre fitas, discos raros, arquivos físicos e plataformas digitais dispersas.

Atitude Feminina, audiovisual e impacto social

A partir de 2005, DJ Raffa passa a trabalhar com o Atitude Feminina, grupo que tem como uma de suas bandeiras centrais o enfrentamento da violência contra a mulher. A parceria rendeu álbuns, DVD, shows no Brasil e no exterior, além de videoclipes com forte circulação social.

Entre os registros mais importantes está “Rosas”, videoclipe produzido por Raffa em 2005. A música se tornou referência em debates sobre violência doméstica e aparece no dossiê como uma obra utilizada por ONGs e escolas públicas em palestras e ações de conscientização.

Outro marco é “Enterro do Neguinho”, de 2010, em que Raffa atuou como produtor, roteirista e editor. O trabalho é apontado como um videoclipe que rompeu estereótipos ao contar com participação da Polícia Militar e apoio da Secretaria de Segurança do Distrito Federal, sendo utilizado em palestras para policiais.

No campo das certificações, o currículo registra disco de platina para o álbum digital “Rosas”, single de safira para “Rosas” e single de diamante para “Enterro do Neguinho”, todos associados à sua atuação como produtor musical.

Esse eixo amplia a leitura sobre sua carreira. Raffa não produziu apenas faixas para circulação musical. Em vários momentos, produziu obras que se tornaram ferramentas de debate público, formação social e mobilização comunitária.

Prêmios e reconhecimentos

Entre os reconhecimentos mais importantes da trajetória de DJ Raffa está o Prêmio Hutúz, principal premiação do hip-hop brasileiro em sua época, criada no contexto da Central Única das Favelas (CUFA). Nos registros públicos do prêmio, Raffa aparece como vencedor da categoria Produtor Musical em 2000 e 2004. Em 2009, na edição Prêmio Hutúz 10 Anos, foi citado entre os melhores produtores musicais da década, ao lado de nomes como Erick 12 e KL Jay.

Os documentos enviados também apontam uma sequência de premiações e homenagens, entre elas:

  • 1991: Prêmio Fashion Night - Melhor Grupo do Ano com Magrellos, em Brasília;
  • 1993: Prêmio Melhores do Ano para o Baseado nas Ruas, em São Paulo;
  • 1994: Prêmio Melhor do Ano como melhor produtor musical, em São Paulo;
  • 1998: Prêmio Renato Russo para o Baseado nas Ruas, em Brasília;
  • 2000: Prêmio Hutúz - Melhor Produtor Musical do Brasil no gênero rap;
  • 2004: Prêmio Hutúz - Melhor Produtor Musical do Brasil no gênero rap;
  • 2009: Prêmio Hutúz - reconhecimento entre os melhores produtores musicais da década;
  • 2010: Prêmio Hip Hop Zumbi - categoria Raiz & Essência;
  • 2013: Prêmio Hip Hop Zumbi - melhor música do ano para “Quebrada Snipe”, do Baseado nas Ruas;
  • 2015: Prêmio Profissionais da Música - melhor técnico de masterização;
  • 2015: Prêmio Empreendedor Hip Hop, pelo Coletivo CIC, em João Pessoa;
  • 2017: Prêmio Hip Hop FAC, da Secretaria de Cultura do Distrito Federal;
  • 2017: Prêmio Caleidoscópio, do Instituto Enraizados, no Rio de Janeiro;
  • 2017: Prêmio Profissionais da Música, na categoria Música Eletrônica, com o grupo Patubatê;
  • 2020: Prêmio FAC Cultura Brasília 60, pelo conjunto da obra;
  • 2023: Prêmio Profissionais da Música nas categorias Beatmaker e Produtor Musical;
  • 2023: Prêmio Hip Hop FAC, categoria Personalidade;
  • 2024: Prêmio DMC Brasil, pelo conjunto da obra;
  • 2024: Prêmio FAC DJ Jamaika, pelo conjunto da obra do Baseado nas Ruas;
  • 2024: Prêmio Paulo Gustavo, categoria Engenheiro de Som.

Mais do que uma lista de troféus, esses reconhecimentos indicam a permanência de Raffa em diferentes momentos do rap brasileiro: da indústria fonográfica dos anos 1990 às premiações contemporâneas; do DJ ao produtor; do beatmaker ao engenheiro de som; do palco à formação cultural.

O professor e o articulador cultural

Outro aspecto importante da trajetória de DJ Raffa é sua atuação como educador. Desde os anos 2000, ele ministra oficinas, palestras e workshops sobre DJ, produção musical, gravação, mixagem e masterização dentro da cultura hip-hop.

Essa atuação se organiza de forma mais ampla no Ponto de Cultura Caminhos Audiovisuais, idealizado por Raffa a partir de 2011 e estruturado para formar jovens em áudio, audiovisual, informática e produção musical. O projeto priorizou adolescentes e jovens adultos em situação de vulnerabilidade social, estudantes da rede pública, comunidades afrodescendentes, jovens em conflito com a lei, mulheres, pessoas com deficiência e comunidade LGBTQIAP+.

O objetivo era formar jovens capazes de gravar, editar e finalizar produtos audiovisuais, especialmente videoclipes de hip-hop. O Ponto de Cultura também desenvolveu ações em parceria com coletivos, comunidades e instituições, incluindo atividades na Cidade Estrutural, no Distrito Federal, e experiências em Porto Velho, Rondônia, com a Kanindé e o Movimento Hip Hop da Floresta.

Em 2018, o projeto realizou oficina de produção musical voltada a jovens indígenas e urbanos em Porto Velho, com gravação de rap periférico, cânticos e instrumentos indígenas. Em 2023, retomou atividades e recebeu integrantes do movimento hip-hop de Boa Vista, Roraima, em intercâmbio de mixagem, masterização e gravação.

Essa dimensão reforça o sentido público da obra de Raffa. Sua carreira não se limita à produção de discos; ela também envolve a criação de condições para que outras pessoas possam produzir.

Uma discografia como documento histórico

A história do rap costuma ser contada por seus grupos, MCs e letras. Essa é uma parte essencial da narrativa. Mas o rap também é construído por quem grava, edita, mixa, masteriza, dirige clipes, organiza arquivos, recupera fonogramas e ensina novas gerações a acessar ferramentas de produção.

DJ Raffa Santoro está nesse lugar. Sua discografia funciona como documento histórico porque atravessa diferentes fases do rap nacional: a chegada do gênero ao vinil, a entrada em gravadoras, a circulação em CDs, a força das coletâneas, os discos independentes, o videoclipe social, o álbum digital e o retorno aos arquivos da velha escola.

O que torna sua trajetória relevante não é apenas a quantidade de obras produzidas, mas o fato de que essas obras aparecem em momentos decisivos da cultura. Raffa está nos Magrellos e no acesso do rap de Brasília à indústria; está no Baseado nas Ruas e na continuidade do discurso das ruas; está nas produções de artistas do DF e de outros estados; está nos projetos com jovens, mulheres, povos indígenas, periferias e medidas socioeducativas.

Por isso, sua história precisa ser lida como parte da própria profissionalização do rap brasileiro. O produtor que começou no break, passou pelo rádio, estudou engenharia de som, gravou discos, venceu prêmios, formou artistas e preservou acervos ajudou a transformar o hip-hop em registro permanente.

Em cada track, base, álbum, oficina e videoclipe, DJ Raffa Santoro deixou uma camada da memória sonora do rap nacional.

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Fontes e referências

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