cover
Tocando Agora:

Kamy Mona transforma a Maré, o verão e o dancehall em narrativa no EP “Caipirinhas”

Artista independente do Rio de Janeiro apresenta uma nova fase com três faixas, participações de Nizaj e Duh Pereira, e uma jornada visual que conecta o Complexo da Maré a Osasco.

Kamy Mona transforma a Maré, o verão e o dancehall em narrativa no EP “Caipirinhas”
Kamy Mona lança “Caipirinhas”, EP que mistura pop, ritmos urbanos globais e vivências da favela carioca.

Criada no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, Kamy Mona constrói sua identidade musical a partir de encontros. Em sua sonoridade, o brilho do pop se aproxima de ritmos urbanos globais como R&B, funk, house, reggaeton e dancehall, criando um universo próprio, marcado por atitude, desejo, liberdade e refrões fortes.

Em 2026, a cantora e compositora lançou seu segundo EP de estúdio, “Caipirinhas”, trabalho que marca uma nova fase artística e amplia sua pesquisa musical. Mais do que uma sequência de faixas, o projeto se apresenta como uma experiência quente, dançante e visual, atravessada pelo Rio de Janeiro, pela Maré, pelo verão e por uma ponte direta com São Paulo.

A própria artista resume a intenção do projeto como uma tentativa de traduzir sua cidade em música. Em áudio enviado à equipe, Kamy explica que a inspiração veio da forma como vive o Rio.

“A grande inspiração para a composição desse projeto, tanto musicalmente quanto visualmente, foi a minha cidade, o Rio de Janeiro no verão, e como eu vivo essa cidade intensamente, perigosamente, malandramente.”

Um EP com cheiro de rua, verão e baile

“Caipirinhas” reúne três faixas: “Pra Variar”, “Te Namorar” e “Puxa Ela”. O projeto tem produção de DJ Swag do Complexo e Dee-X, além de participações de Nizaj, cantor angolano ligado à Maré, e Duh Pereira, artista de Osasco, em São Paulo.

Entre beats de reggaeton e dancehall, o EP apresenta uma artista interessada em criar músicas para o corpo, mas sem abrir mão de território, memória e ponto de vista. Kamy fala de liberdade, poder feminino, sensualidade e vivência urbana sem transformar a favela em cenário único ou repetido.

Essa escolha aparece com força quando ela descreve o clima que queria alcançar nas músicas.

“Eu quis escrever um pouco sobre isso, músicas que eu ouviria tomando minhas caipirinhas na Lapa, pela praia e tudo mais. Tentei trazer essa energia, esse meu universo para o Rio de Janeiro.”

O resultado é um trabalho que se move entre a pista e a paisagem. O Rio não aparece apenas como lugar bonito de imagem. Aparece como rotina, trânsito, desejo, risco, festa, dança e contradição. A Maré, nesse sentido, não é tratada como pano de fundo. É ponto de partida.

Da Maré para Osasco: a ponte do dancehall

Um dos pontos centrais de “Caipirinhas” é a aproximação entre o Rio de Janeiro e São Paulo. No projeto, essa ponte ganha forma especialmente em “Puxa Ela”, faixa com participação de Duh Pereira, artista de Osasco.

Segundo Kamy, a conexão surgiu de forma natural. Ela conheceu a música de Duh na praia, perguntou quem cantava e, a partir daí, nasceu a parceria.

“Eu conheci a música dele na praia. Para mim foi o match. Eu estava na praia, ouvi a música tocando, perguntei quem cantava, minha amiga disse que era ele e aí a gente fez essa parceria.”

A escolha de Osasco não é apenas geográfica. Para Kamy, a região tem uma presença forte da cultura dancehall, com cena, festas e movimentação underground. Ao levar “Puxa Ela” para São Paulo, a artista amplia a narrativa iniciada na Maré e propõe um diálogo entre quebradas, sem apagar as diferenças entre elas.

“Eu quis trazer um pouco da minha cidade, da Maré, e também fazer essa ponte com São Paulo musicalmente, porque é onde pulsa o dancehall. Também queria trazer essas duas imagens de favela. Favela não é uma coisa só, a gente tem vários estilos e culturas diferentes.”

A Maré como cenário natural

Ao falar sobre a parte visual do projeto, Kamy deixa claro que a Maré é mais do que lugar de origem. É imagem interna, memória e ambiente de criação. A artista afirma que, mesmo quando pensa visualmente, o território aparece de forma espontânea.

“A Maré também é o meu cenário natural. Quando eu fecho o olho e penso em alguma coisa, eu penso na minha janela ou andando na Maré.”

Essa relação aparece diretamente nos videoclipes. Segundo a artista, o clipe de “Te Namorar” foi feito na Maré, enquanto “Puxa Ela” foi gravado em São Paulo com Duh Pereira. A intenção era criar uma leitura visual capaz de ligar favela do Rio de Janeiro e quebrada paulista, sem reduzir nenhuma das duas a um mesmo imaginário.

Esse cuidado fortalece o projeto. Em vez de usar a favela apenas como estética, Kamy parte de uma experiência real. Ela fala de dentro, com afeto, desejo e senso de pertencimento.


Três doses, três estados de espírito

A jornada visual de “Caipirinhas” foi pensada em três partes, chamadas de doses. Cada uma apresenta um estado de espírito do projeto e ajuda a organizar a narrativa do EP.

1ª dose: Fascínio, em “Pra Variar”

A primeira dose é guiada pela força das águas. Em “Pra Variar”, Kamy apresenta uma mulher intensa, magnética e difícil de ignorar. Gravado nas águas da Maré, o visual mergulha em uma atmosfera mística, em que território, feminilidade e movimento se encontram.

2ª dose: Desejo, em “Te Namorar”

A segunda dose celebra os encontros, a dança e os corpos em movimento. Inspirado pelo verso “quero bailar contigo por toda a favela”, o clipe percorre ruas e espaços da Maré, transformando o território em palco para o desejo e para a conexão.

3ª dose: Missão, em “Puxa Ela”

A terceira dose leva a travessia para Osasco, em São Paulo, território apontado no projeto como um dos polos pulsantes da cultura dancehall no Brasil. Em parceria com Duh Pereira, Kamy conecta Maré e São Paulo através da música, da rua e da liberdade.

Nizaj e Duh Pereira: parcerias com sentido

As participações de Nizaj e Duh Pereira não aparecem como escolhas aleatórias. Elas ampliam o mapa afetivo e musical de “Caipirinhas”.

Nizaj, cantor nascido em Angola e ligado à Maré, entra no projeto trazendo uma camada de identidade, sotaque e sensibilidade. Kamy afirma que já admirava seu trabalho e que não conseguia imaginar outra voz para a música.

“Ele é um cantor aqui da Maré, mas nasceu na Angola. Eu sou admiradora do trabalho dele, da sensibilidade dele. Quando eu escrevi essa música, eu não consegui imaginar outra voz que não fosse a dele.”

Já Duh Pereira representa a ponte com Osasco e com a cena dancehall paulista. A parceria reforça a ideia de circulação entre territórios, mostrando que o projeto não está fechado em uma única paisagem. Ele nasce na Maré, mas encontra continuidade em outras quebradas.

Uma artista independente em construção

Kamy Mona integra o coletivo Estude o Funk e já se apresentou em eventos e festivais como Mostra Maré de Música, WOW Festival e Festival Sarará. Sua trajetória aponta para uma artista que está construindo caminho próprio sem se afastar do território que molda sua linguagem.

Em “Caipirinhas”, essa construção aparece com mais clareza. Kamy não tenta separar o pop da favela, nem o dancehall da vivência carioca. Ela aproxima tudo isso com naturalidade, criando um trabalho que fala de prazer, corpo e liberdade, mas também de origem, deslocamento e leitura de mundo.

Para uma artista independente, esse tipo de assinatura é importante. O EP apresenta música, estética e narrativa no mesmo movimento. Não se trata apenas de lançar três faixas, mas de organizar um universo em torno delas.

Com “Caipirinhas”, Kamy Mona coloca sua própria cidade no centro da criação e mostra que a favela pode ser muitas coisas ao mesmo tempo: festa, desejo, estratégia, beleza, perigo, afeto, ritmo e pensamento.

Tracklist

  • 1. Pra Variar
  • 2. Te Namorar
  • 3. Puxa Ela

Ficha do projeto

  • Artista: Kamy Mona
  • Projeto: Caipirinhas
  • Ano: 2026
  • Origem: Complexo da Maré, Rio de Janeiro
  • Produção: DJ Swag do Complexo e Dee-X
  • Participações: Nizaj e Duh Pereira
  • Redes sociais: @kamymonaa

Fale Conosco